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2 de maio de 2021

POEMA - DIA DA MÃE

 MINHA MÃE

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fronte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão, que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu.

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.


 Vinicius de Moraes (Rio de Janeiro , 1933). em “O Caminho para a Distância”. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

 


21 de março de 2021


 

𝓐𝓶𝓸𝓻 é 𝓯𝓸𝓰𝓸 𝓺𝓾𝓮 𝓪𝓻𝓭𝓮 𝓼𝓮𝓶 𝓼𝓮 𝓿𝓮𝓻 – 𝓒𝓪𝓶õ𝓮𝓼

Fonte

Amor é um fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói, e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer.


É um não querer mais que bem querer;

É um andar solitário entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É um cuidar que ganha em se perder;


É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata, lealdade.


Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

14 de fevereiro de 2021

𝓣𝓸𝓭𝓪𝓼 𝓪𝓼 𝓒𝓪𝓻𝓽𝓪𝓼 𝓭𝓮 𝓐𝓶𝓸𝓻 𝓼ã𝓸 𝓡𝓲𝓭í𝓬𝓾𝓵𝓪𝓼

 Todas as cartas de amor são

Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.


A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos
(um dos heterónimos do escritor Fernando Pessoa)

5 de fevereiro de 2021

𝑶 𝑷Á𝑺𝑺𝑨𝑹𝑶 𝑫𝑨 𝑪𝑨𝑩𝑬Ç𝑨 (𝑽𝑬𝑹𝑺𝑶𝑺 𝑷𝑨𝑹𝑨 𝑪𝑹𝑰𝑨𝑵Ç𝑨𝑺)




 Sou o pássaro que canta

dentro da tua cabeça

que canta na tua garganta

canta onde lhe apeteça


Sou o pássaro que voa

dentro do teu coração

e do de qualquer pessoa

mesmo as que julgas que não


Sou o pássaro da imaginação

que voa até na prisão

e canta por tudo e por nada

mesmo com a boca fechada


E esta é a canção sem razão

que não serve para mais nada

senão para ser cantada

quando os amigos se vão


e ficas de novo sozinho

na solidão que começa

apenas com o passarinho

dentro da tua cabeça.

𝓜𝓪𝓷𝓾𝓮𝓵 𝓐𝓷𝓽ó𝓷𝓲𝓸 𝓟𝓲𝓷𝓪


24 de junho de 2020

"A Cavalo no Tempo"


Sinopse:
"A passo, a trote ou a galope, todos nós viajamos a cavalo no tempo e nessa viagem descobrimos o mundo, desvendamos os outros, revelamo-nos. Abrimos os olhos para os desacertos do mundo: a guerra, a violência, a solidão. Tomamos consciência da evolução da Humanidade através dos tempos. Com nonsense, sensibilidade e sentido crítico, Luísa Ducla Soares faz-nos pensar e cavalgar no ritmo dos seus poemas."


No dia 25/06/2020 os alunos dos terceiro e quarto anos, vão estudar um poema deste livro chamado
A Máquina do Tempo



1 de junho de 2020

A bailarina


Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.

Cecília Meireles

Ao pé da criança


O pé da criança ainda não sabe que é pé,
e quer ser borboleta ou maçã.

Mas depois os vidros e as pedras,
as ruas, as escadas,
e os caminhos de terra dura
vão ensinando ao pé que não pode voar,
que não pode ser fruta redonda num ramo.

Então o pé da criança
foi derrotado, caiu
na batalha,
foi prisioneiro,
condenado a viver num sapato.

Pouco a pouco sem luz
foi conhecendo o mundo à sua maneira,
sem conhecer o outro pé, encerrado,
explorando a vida como um cego.

Pablo Neruda

31 de maio de 2020

Feliz dia dos irmãos


"Irmão, irmãos
www.washingtonallifer.wordpress.com

Cada irmão é diferente.
Sozinho acoplado a outros sozinhos.
A linguagem sobe escadas, do mais moço
ao mais velho e seu castelo de importância.
A linguagem desce escadas, do mais velho
ao mísero caçula.

São seis ou são seiscentas
distâncias que se cruzam, se dilatam
no gesto, no calar, no pensamento?
Que léguas de um a outro irmão.
Entretanto, o campo aberto,
os mesmos copos,
o mesmo vinhático das camas iguais.
A casa é a mesma. Igual,
vista por olhos diferentes?

São estranhos próximos, atentos
à área de domínio, indevassáveis.
Guardar o seu segredo, sua alma,
seus objectos de toalete. Ninguém ouse
indevida cópia de outra vida.

Ser irmão é ser o quê? Uma presença
a decifrar mais tarde, com saudade?
Com saudade de quê? De uma pueril
vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?"
Carlos Drummond de Andrade, Poesia Completa.

Editora Nova Aguilar. Rio de Janeiro, 2003. Págs 951-952.

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