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21 de março de 2022

 Venham enfim as altas alegrias,

As ardentes auroras, as noites calmas,

Venha a paz desejada, as harmonias,

E o resgate do fruto, e a flor das almas.

Que venham, meu amor, porque estes dias

São de morte cansada,

De raiva e agonias

E nada.


José Saramago

Não me Peçam Razões...


Não me peçam razões, que não as tenho,

Ou darei quantas queiram: bem sabemos

Que razões são palavras, todas nascem

Da mansa hipocrisia que aprendemos.


Não me peçam razões por que se entenda

A força de maré que me enche o peito,

Este estar mal no mundo e nesta lei:

Não fiz a lei e o mundo não aceito.


Não me peçam razões, ou que as desculpe,

Deste modo de amar e destruir:

Quando a noite é de mais é que amanhece

A cor de primavera que há-de vir.


José Saramago

“Magnificat” de Álvaro de Campos

 Quando é que passará esta noite interna, o universo,

E eu, a minha alma, terei o meu dia?

Quando é que despertarei de estar acordado?

Não sei. O sol brilha alto,

Impossível de fitar.

As estrelas pestanejam frio,

Impossíveis de contar.

O coração pulsa alheio,

Impossível de escutar.

Quando é que passará este drama sem teatro,

Ou este teatro sem drama,

E recolherei a casa?

Onde? Como? Quando?

Gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo?

É esse! É esse!

Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;

E então será dia.

Sorri, dormindo, minha alma!

Sorri, minha alma, será dia!


Fernando Pessoa

Ser poeta

Fonte

 

31 de janeiro de 2022

A Partida

Teresa Dangerfield




Fonte

Deitou a cabeça de fora
Da janela do comboio
Deitou o chapéu
No chão do comboio
E acenou
Com a cabeça de fora
Da janela do comboio.
Um apito forte
Anunciou
A partida
O comboio afastou-se.
Ficou a acenar
Sem dizer palavra
Com lágrimas nos olhos molhando
A janela do comboio
Vendo vultos ao longe
A acenar.
E na plataforma
Sem palavras
Os vultos mudavam
De direção
Porque era a partida.
Saiu da janela do comboio
Pegou no chapéu
Sentou-se e partiu.



31 de dezembro de 2021

Recomeço



Se puderes

Sem angústia

E sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro

Do futuro

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.


E, nunca saciado,

Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar e vendo

O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças…


Miguel Torga



Renova-te

 



Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.




Cecília Meireles

25 de dezembro de 2021

POEMA SOBRE O NATAL... ❤️

 Quando um Homem Quiser

Tu que dormes à noite na calçada do relento

numa cama de chuva com lençóis feitos de vento

tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento

és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que dormes só o pesadelo do ciúme

numa cama de raiva com lençóis feitos de lume

e sofres o Natal da solidão sem um queixume

és meu irmão, amigo, és meu irmão

Natal é em Dezembro

mas em Maio pode ser

Natal é em Setembro

é quando um homem quiser

Natal é quando nasce

uma vida a amanhecer

Natal é sempre o fruto

que há no ventre da mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar

tu que inventas bonecas e comboios de luar

e mentes ao teu filho por não os poderes comprar

és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei

fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei

pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei

és meu irmão, amigo, és meu irmão

Ary dos Santos, in 'As Palavras das Cantigas'


23 de dezembro de 2021

 Quero apenas cinco coisas... 

Primeiro é o amor sem fim 

A segunda é ver o outono 

A terceira é o grave inverno

Em quarto lugar o verão 

A quinta coisa são teus olhos.. 

Não quero dormir sem teus olhos.

Não quero ser... sem que me olhes.

Abro mão da primavera para que continues me olhando.

Pablo Neruda

Adaptação do poema "Peço Silêncio"

Il. Almada Negreiros



1 de novembro de 2021

Eu Bem Vi Nascer o Sol Antologia da Poesia Popular Portuguesa


 SINOPSE

Plano Nacional de Leitura

Livro recomendado para o 2º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada.


Estamos perante uma selecta de poemas da tradição oral destinada aos mais pequenos. Razão por que a escolha privilegia o folclore rimado infantil, não deixando, porém, de incluir romances tradicionais (como "A Nau Catrineta", "O Conde Torres", "O Conde Nilo" e "A Condessinha"), canções e outras poesias de origem popular sem destinatário específico. Selecção ampla que procurou abranger uma considerável diversidade de géneros e que foi efectuada com base num razoável número de recolhas de estudiosos da nossa literatura popular, as quais aparecem referenciadas no final.

Fonte

Disponível na tua Biblioteca!

5 de outubro de 2021

O cão

 

Cães diversos. Foto: Dora Zett / Shutterstock.com

O cão

Que faz ão, ão

É bom amigo como os que o são!


É bom amigo, bom companheiro,

É valente, fiel, verdadeiro,

Leal, serviçal,

E tem bom coração


Que o diga o seu dono, se ele o tem ou não!


Quem vem de fora, a gente

E chega a casa, é o cão

Quem diz primeiro, todo prazenteiro,

Saltando e rindo

Contente,

E com olhos a brilhar de amor:

– “Ora seja bem vindo

O meu senhor”


O cão

Que faz ão, ão

É bom amigo como os que o são!


 


Afonso Lopes Vieira, Canto infantil

4 de outubro de 2021

𝕆 𝕡á𝕤𝕤𝕒𝕣𝕠 𝕕𝕒 𝕔𝕒𝕓𝕖ç𝕒

Pintura de Youji Takeshige 




Sou pássaro que canta
dentro da tua cabeça,
que canta na tua garganta,
que canta onde lhe apeteça.

Sou pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
(mesmo as que julgas que não).
(...)

Manuel António Pina, «O pássaro da cabeça»


 

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